Eleições britânica: One hell of a mess

O que nos importam as eleições britânicas?

A mim importam-me pela minha ligação pessoal ao país e os meus muitos amigos que vivem na Grã-Bretanha. Mas tento que isso não afecte a minha análise.

Afinal não houve o Brexit? A resposta é, ainda não. E com ou sem Brexit não se muda a geografia. A Grã-Bretanha não vai a lado nenhum. Continua a ser um vizinho importante da Europa continental, um parceiro económico relevante, e um aliado muito importante no campo da segurança e defesa no quadro da NATO.

É verdade que Londres já não é a chave da inserção de Portugal no sistema internacional. A mais velha aliança, anglo-luso, passou por altos e baixos, no entanto, foi sempre vital entre 1640 e 1940. Hoje é um fantasma do passado. Na Segunda Guerra Mundial a relação com Londres ainda era a chave para inserção internacional e a segurança de Portugal e das suas colônias. Nas décadas seguintes os britânicos foram perdendo a posição de principal parceiro económico de Portugal. E as relações diplomáticas entre as Necessidades e o Foreign Office foram azedando por causa das políticas opostas em relação à descolonização, com os governos de Londres cada vez mais em favor, e o governo salazarista em Lisboa contra.

O 25 de Abril de 1974 foi a oportunidade para uma re-aproximação. Os primeiro-ministros britânicos, o trabalhista James Callaghan (1976-79) e a conservadora Thatcher (1979-1989), foram apoios importantes da transição democrática portuguesa e da adesão de Portugal à então CEE. Mas a partir da adesão de Portugal em 1986, e sobretudo nas últimas duas décadas a relação foi arrefecendo significativamente.

O eixo Paris-Bona/Berlim foi ganhando cada vez mais importância a par da relação com Espanha para Portugal. E do lado da diplomacia britânica parece ter havido uma crescente negligência da relação com Portugal, parte de uma dificuldade de Londres em trabalhar em coligações amplas no seio do CEE/UE.

Uma expressão simbólica recente disto é o facto de que a Grã-Bretanha foi dos aliados tradicionais de Portugal o único a ter-se mantido ruidosamente silencioso aquando do recente funeral de Estado de Mário Soares. Pelo que me foi dito por fontes da diplomacia portuguesa, Londres não enviou ninguém, não teve qualquer gesto. Seria por ser Soares socialista? Mas Soares era um histórico da Guerra Fria, um símbolo da democratização e tinha tido boas relações com vários líderes britânicos. Sobretudo era um antigo Presidente da República, e estes funerais de estado são uma ocasião no protocolo da diplomacia internacional para mostrar simbolicamente proximidade. Os responsáveis da política externa britânica não estavam, aparentemente, disponíveis sequer para este esforço mínimo.

Apesar disso, o Reino Unido é um membro importante da NATO, um parceiro comercial relevante do conjunto da Europa, embora esteja longe de ser indispensável para Portugal ou outros membros da UE como os defensores do Brexit parecem acreditar. Sobretudo a Grã-Bretanha é a casa de um contingente importantes de imigrantes portugueses e do resto da Europa, mais de 2 milhões. Portugal e outros países europeus continuar a acolher muitos veraneantes e residentes britânicos, mais de um milhão.

Uma eleição que veio aumentar a incerteza nas negociações do Brexit

Qual o balanço do resultado destas eleições britânicas de 8 de Junho de 2017 deste ponto de vista?

Theresa May, a líder conservadora que convocou as eleições convencida de que alcançaria grande vitória está a ser comparada com Bonar Law e Alec Douglas-Homes os dois líderes conservadores mais fracos e efémeros do último século. Está em dúvida a continuação de May como primeira-ministra, no imediato e mais ainda no médio prazo, uma antiga Ministra do Interior decida a conter a imigração e a fechar fronteiras o mais possível através de um hard Brexit. Mas o que é certo é que teremos em Londres um governo fraco e instável. Isso pode aumentar as dificuldades económicas. E irá provavelmente aumentar ainda mais a incerteza na negociação do Brexit.

Embora no novo parlamento britânico haja mais deputados favoráveis ao chamado soft Brexit não é claro que isso tenha tradução política. Os três principais partidos da oposição – trabalhista, liberais democratas e o partido nacionalista escocês – favorecem um soft Brexit e o reconhecimento imediato dos direitos dos residentes europeus no Reino Unido. Mas não é impossível que na tentativa de recuperar terreno os conservadores e os seus aliados, os unionistas da Irlanda do Norte, avancem com uma versão hard Brexit e não temam até uma crise com a UE que poderiam tentar assacar a Bruxelas para uma mobilização nacionalista do voto para uma nova eleição.

O slogan de Theresa May, a líder conservadora ilustra bem qual era o seu objetivo com estas eleições: “strong and stable”. O objetivo era reforçar o governo para lidar com as negociações difíceis do Brexit e a incerteza económica. Foi o contrário que aconteceu.

Parece lógico pensar que estas eleições sem vencedor claro vão aumentar, pelo menos no curto prazo, as dificuldades das negociações do Brexit, a incerteza económica e reforçar o retraimento estratégico de Londres, nomeadamente em relação à NATO. Desse ponto de vista estas eleições não são uma boa notícia para Portugal e os portugueses. Embora seja cedo para perceber o que sucederá, e seja preciso deixar a poeira desta enorme confusão assentar.

Photo by Jeff Djevdet / CC BY 2.0

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Bruno Cardoso Reis

Guest author at Changing World. PhD in International Security (King's College). Master in Historical Studies (Cambridge Univ.). Guest lecturer at ISCTE-IUL. Researcher at ICS-IUL and Associate Researcher at CEI-IUL and King's College.

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