A governação de João Lourenço: O “mambo está rijo”

Saído Presidente da República das eleições gerais de 23 de Agosto, o militar de carreira e ex-ministro da Defesa, João Lourenço, tem surpreendido pela lista de exonerações, em especial, no passado dia 15 com a decisão de retirar Isabel dos Santos do cargo de presidente do Conselho de Administração da Sonangol. A notícia tem deixado vários otimistas, tendo ocorrido, inclusive, manifestações de alegria e de festa em Luanda. Porém, muitos outros mantêm-se cautelosos sobre se Angola está, de facto, a iniciar um ciclo de mudança ou se está perante uma simples “dança de cadeiras”. Expectáveis ou não estas mudanças, o certo é que não se esperava que as mesmas ocorressem em tão pouco tempo de governação.

O “buldózer” de João Lourenço: o fim da linhagem Dos Santos?

A lista de exonerações já é significativa e em diversas áreas estratégicas do Estado. Desde a banca nacional (Banco Nacional de Angola), ao sector dos diamantes (Endiama), passando pela comunicação social (TPA, RNA, Edições Novembro e Angop) – e aqui, com a cessação do contrato com a empresa Semba Comunicação, cujos sócios são dois filhos de José Eduardo dos Santos – até ao sector petrolífero (Sonangol) e, mais recentemente, à exoneração das chefias da polícia e dos serviços militares, contrariando assim o decreto presidencial de 11 de Setembro do seu antecessor.

No seu discurso do 11 de Novembro, João Lourenço declarou que: “Precisamos ao mesmo tempo de neutralizar ou reduzir a influência nefasta dos que apenas se preocupam em se servir a si mesmo e descurando a necessidade da defesa do bem comum”. Ora, pela decisão que se seguiu de exoneração de Isabel dos Santos, muitos não deixam de pensar na associação que o atual presidente está a deixar subjacente entre “influência nefasta” e Família dos Santos e, como tal, sobre o que se avizinha. Isto é, se o Fundo Soberano de Angola, presidido por outro filho de José Eduardo dos Santos, será o próximo alvo do buldózer de “JLo”? Há sinais que indicam que existe uma forte probabilidade de ser. Destaque-se o artigo publicado no Jornal de Angola em 8 de Novembro e que enuncia a questão dos Paradise Papers, não indo em defesa do presidente do Fundo.

Com estas decisões, estamos perante o fim do poder da linhagem dos Santos? Tal como o investigador Ricardo Soares de Oliveira refere, trata-se de uma tentativa de eliminação política da influência da Família Dos Santos. Contudo, o seu poder económico ainda não foi afetado. Mas poderá o poder económico manter-se, sem a influência política em Angola?

O que esperar então de José Eduardo dos Santos e o que se passa dentro do MPLA?

 Além de uma reação mais acesa de ‘Tchizé’ dos Santos e da entrevista exclusiva concedida pela Isabel dos Santos à TV Zimbo, procurando mostrar os bons resultados do Conselho de Administração que presidiu, o silêncio impera até então do lado de José Eduardo dos Santos. Muitos têm especulado sobre o seu estado de saúde e se o mesmo explica o seu silêncio e, simultaneamente, todas estas exonerações. Como refere o sociólogo angolano Manuel dos Santos, João Lourenço não está isolado dentro do MPLA. Note-se aliás que, para tomar estas decisões, o próprio tem de estar bem respaldado dentro do partido, não se podendo olvidar que “JLo” conhece bem a máquina partidária, até pelos cargos que assumiu dentro do MPLA. Por outro lado, Ismael Mateus aponta para o facto de o apoio crescente ao seu sucessor, dentro e fora do MPLA, retirar a José Eduardo dos Santos “espaço para sair em defesa dos seus filhos”. Refira-se também que, na sequência da renúncia de Mugabe no Zimbabwe, históricos militantes do MPLA que apoiam “JLo” têm apelado à demissão de Dos Santos da presidência do partido. Questiona-se se existirá um poder bicéfalo em Angola no futuro bem próximo ou, antes, uma só pessoa para os dois cargos políticos mais importantes do país.

Podemos então dizer que João Lourenço está a montar um tabuleiro de forças a seu favor para poder governar e deixar o seu legado, tal como JES fez quando assumiu a presidência do país. Graças ao reforço dos poderes do presidente deixado pelo seu antecessor, tem procurado destacar o Estado do partido, mas, por enquanto, sem mexer no MPLA. Não obstante, sobre esta governação inicial de João Lourenço importa sublinhar que ainda não vemos mudanças com base em novas pessoas.

Luanda. Photo by David Stanley / CC BY 2.0

CC BY-NC-SA 4.0 This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 4.0 International License.

Cláudia Almeida

Research Assistant at CEI-IUL. PhD Candidate at the Universidad Complutense de Madrid. Research interests: elections, electoral violence, and processes of post-civil war democratization and peacebuilding in Africa. Previously visiting scholar at the CEA-Universidade Eduardo Mondlane, FCS-Universidade Agostinho Neto, ICS-Universidade de Lisboa.

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