O que aprendemos com o atentado de Londres: islamização da radicalização e a estratégia do Daesh

Ataque em Westminster, terrorismo ou crime comum?

Há quem diga que o ataque de 22 de Março de 2017 não devia ser qualificado como um atentado terrorista ligado aos movimentos islamistas radicais como o Daesh. Discordo. Outra questão é saber o grau de atenção ou o tipo de cobertura mediática a dar a este tipo de ataques. Mas recuso a saída fácil para esta questão complicada, que passe por remeter este tipo de violência para a criminalidade comum. Claro, que em certo sentido todo o terrorismo é um crime, na medida em que vise civis desarmados. Mas a questão é que é estes ataques de surpresa são inspirados e reclamam-se de uma ideologia, de uma causa. Os criminosos comuns agem procurando o lucro ou outros motivos pessoais limitados, não morrem num ataque suicida a Westminster, o centro do poder na Grã-Bretanha.

É tão perigoso exagerar o perigo representado por esta vaga terrorista inspirada pelo Daesh, como ignorá-lo. Este ataque terrorista aponta para tendências que é indispensável ter em conta.

A islamização jihadista do radicalismo violento

Um primeiro dado importante do ataque de Londres é que confirma a importância da tendência para a islamização jihadista do radicalismo no Ocidente. Indivíduos marginais, com dificuldades de adaptação e integração na sociedade em que vivem, muitas vezes com um passado de alguma violência e cadastro por crimes comuns, por vezes uma passagem pela prisão, radicalizam-se por via de uma conversão mais ou menos apressada ao jihadismo takfiri violento. E envolvem-se em ações que procuram espalhar o terror ao serviço da causa do Daesh.

Nalguns casos essa islamização dá-se pela (re)conversão de jovens de famílias muçulmanas a esta ideologia radical minoritária no seio do bilião de crentes no Islão. Mas mesmo quando vêm de uma tradição familiar islâmica, estes terroristas são mais radicais do que muçulmanos no sentido tradicional. É por isso que esta corrente em que se integra o Daesh insiste que a jihad no sentido de luta armada é, segundo o título de um dos fundadores desta corrente, um Dever Negligenciado pelos muçulmanos. É por isso que este jihadistas insistem em declarar takfiri a maioria dos muçulmanos que recusam a sua visão, afirmando que não são verdadeiros crentes.

Este processo de islamização jihadista de pessoas já com uma propensão para o radicalismo violenta – aqueles indivíduos que realmente acreditam que “isto só vai lá como umas bombas” – é mais evidentes em conversos ao Islão, como é o caso do autor do ataque em Westminster, que de Adrian Helms se converteu em Khalid Masood.

Esta conversão ideológica de indivíduos com dificuldades de integração na sociedade dominantes e/ou um perfil violento e cadastro criminoso anterior é típica das vagas de terrorismo transnacional: são recrutas ideais. Ainda hoje se discute qual o grau de efetiva coordenação ou convicção dos autores de atentados na vaga terrorista anarquista do final do século XIX e início do século XX, ou quantos terroristas de extrema-esquerda na década de 1970s eram realmente conhecedores de Marx e de O Capital? Mao Zedong famosamente afirmou que entre os melhores recrutas da sua guerrilha comunista estavam bandos de piratas e outros grupos de criminalidade organizada. Mas nada disto significa que não haja uma estratégica ou uma ideologia por detrás destes ataques.

A estratégia terrorista do Daesh

Não há confirmação de que o ataque de Westminster foi dirigido ou organizado a partir de Raqqa, a capital cercada do autoproclamado Estado Islâmico. Mas tal não seria impossível usando redes encriptadas amplamente disponíveis como o “WhatsApp”. Seja como for isto não significa que o ataque não tenha nada a ver com o Daesh. Não se trata só de o Daesh vir a público reclamar o ataque e louvar o atacante como um soldado seu. O ataque corresponde à estratégia do Daesh de combinar ataques surpresa de todo o tipo e em geografias bem distantes do conflito armado mais convencional na Síria e no Iraque. É uma forma de desviar atenções e recursos, de tentar dissuadir uma ação mais robusta do Ocidente, de manter viva e relevante a sua“marca”, de promover a sua visão de um choque de civilizações.

O sucedido em Westminster corresponde também ao tipo de ataques que o Daesh tem promovido junto dos seus seguidores no Ocidente. Nomeadamente na sua revista online em inglês vem apelando para que os seus apoiantes, impedidos de viajar para a Síria, se voltem para ataques improvisados com recurso a facas e a veículos capazes de abalroar, ferir e matar civis. Estes são instrumentos letais a que todos têm acesso, ao contrário das armas de fogo.

Este é também a confirmação de que o Daesh está disponível a encorajar qualquer um a fazer ataques indiscriminados e a colar-lhe o selo de reconhecimento do grupo. Isto é invulgar. Grupos terroristas anteriores – a al-Qaeda, e mais ainda o IRA ou a ETA – eram tipicamente seletivos no recrutamento e na execução das suas ações e muito ciosos de só validar ataques organizados por si, negando ataques improvisados, e por vezes tomando até medidas drástica para impedir a ação de de alas dissidentes mais violentas. Com o Daesh vale mesmo tudo, e se possível fará mais e pior.

As boas notícias

É verdade que em parte este ataque vem confirmar boas notícias. O núcleo duro do território do Daesh está mais isolado e cercado do que nunca. A fronteira com a Turquia parecer finalmente selada impedindo o constante reforço das fileiras dos Daesh na Síria e no Iraque pela mobilização ideológica mais significativa de voluntários estrangeiros para um conflito armado desde a Guerra Civil Espanhola. Este tipo de isolamento é fundamental para derrotar um grupo armado irregular.

E é das dificuldades militares crescentes no seu núcleo territorial na Síria e no Iraque, e também da aparente dificuldade em organizar ataques por conta própria devido à vigilância e cooperação reforçada dos serviços de informações europeus e de países muçulmanos que surge este plano B do Daesh. Só na Grã-Bretanha foram impedidos 13 ataques organizados no último ano. Por isso o Daesh adoptou o “estilo Nike” de terrorismo altamente descentralizado do tipo “just do it”.

As más notícias

O tipo de ataques como o de Westminster, de “Marauding Terrorism”, que o Daesh continua a promover e a validar, são impossíveis de impedir, ao contrário de ataques terroristas mais tradicionais. Um ataque com base numa organização cuidadosa e num plano demorada pode ser infiltrado e as suas comunicações interceptadas. Este tipo de ataques por militantes que são convertidos, mobilizados e orientados em boa parte on-line, com recurso a redes encriptadas ou a apelos amplamente publicitada, são impossíveis de impedir completamente.

O ataque de Londres mostra isso. A duração do ataque desde o seu início até o terrorista ser abatido parece ter sido pouco mais um minuto. É impossível esperar uma reação mais rápida do que isso pelas forças de segurança.

Apesar de este ser o ataque mais mortífero na Grã-Bretanha desde 2005, até ao momento o número de ataques deste tipo tem sido relativamente limitado. A grande questão é saber se continuará a ser assim. Se esta vaga se multiplicar a situação pode tornar-se complicada, desde logo politicamente. É esse o objetivo do Daesh, criar pelo terror uma situação que alimente a narrativa do conflito inevitável entre muçulmanos e não-muçulmanos e afirmar o seu papel. Ignorar esta estratégica é enterrar a cabeça na areia. O terrorismo é uma forma de guerrilha psicológica e deve ser combatida como tal. E aqui a imprensa tem um papel importante, de noticiar sem glorificar, de informar sem propagandear.

Não há nada a fazer?

É possível continuar a trabalhar no sentido de dificultar este tipo de ataques. Melhorando a capacidade de resposta dos serviços de emergência. Aumentando as restrições ao trânsito, nomeadamente de pesados em áreas urbanas. Colocando mais barreiras físicas que dificultem o abalroamento de civis nos passeios. Aumentar os meios e as possibilidades de vigilância de suspeitos de radicalização como era o caso de Masood. Mas tudo isto tem limites, exige tempo, dinheiro, e também decisões difíceis entre aceitar mais vigilância preventiva ou mais riscos. Não há a este respeito respostas certas ou garantidas. Há opções a fazer por todos os cidadãos, que não podem queixar-se ao mesmo tempo de vigilância excessiva e exigir risco zero. E nessa discussão importa recordar que também há atentados terroristas em Estados autoritários. Ou seja, não há soluções simples e com sucesso garantido no combate a ataques de surpresa por terroristas suicidas.

Aliás, se há um país na vanguarda das medidas antiterroristas é precisamente a Grã-Bretanha. Há mais a fazer em Portugal. E os britânicos, como pude verificar quando vivi em Londres entre 2005-2007 – até pelo peso da memória histórica do Blitz nazi e das campanhas do IRA – parecem predispostos a aceitar com alguma calma uma realidade fundamental: é impossível evitar todos os ataques terroristas, que por natureza são ataques de surpresa. Há no combate ao terrorismo uma assimetria fundamental. Os terroristas são relativamente poucos e mal armados, mas só têm de acertar uma vez. Já os serviços de segurança do Estado, por muitos homens e armas que tenham, têm de acertar todas as vezes. Ora não há nenhuma organização que tenha uma taxa de sucesso de 100%.

Westminster Bridge Memorial, March 27, 2017. Photo by David Holt / CC BY 2.0

CC BY-NC-SA 4.0 This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 4.0 International License.

Bruno Cardoso Reis

Guest author at Changing World. PhD in International Security (King's College). Master in Historical Studies (Cambridge Univ.). Guest lecturer at ISCTE-IUL. Researcher at ICS-IUL and Associate Researcher at CEI-IUL and King's College.

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