Economia social e solidária: garante de democracia na transição para a sustentabilidade

As alterações climáticas podem levar a uma nova vaga de autoritarismo. A economia social e solidária propõe um modelo de transição para a sustentabilidade baseado no aprofundamento da democracia.

O sono da Razão produz monstros (Goya)

A série “O Conto da Aia”, baseada no romance homónimo de Margaret Atwood, ilustra como o colapso ambiental pode levar à morte da democracia: para manter o “status quo”, as elites não hesitam em promover uma interpretação moralista da crise, justificando um regime totalitário que lhes garante prioridade no acesso a bens escassos, neste caso úteros férteis e alimentação sadia. O sexto episódio indica que o regime reduziu 78% do carbono atmosférico em apenas três anos e implementou um modelo agrícola 100% orgânico. A visão distópica de Atwood não é mera ficção: a República de Gilead é uma síntese das derivas autoritárias que devastaram o Ocidente no século XX.

As alterações climáticas ameaçam a sobrevivência da nossa espécie, exigindo um modelo de governança que substitua o crescimento económico por modelos circulares de produção, distribuição e consumo. Como fazer mais com menos sem uma nova deriva autoritária? O discurso da “economia verde” desvia a atenção das estruturas de poder que destroem ecossistemas. Promove uma abordagem individualista e moralizante da sustentabilidade, sobretudo entre classes médias que veem no “consumo sustentável” uma forma de se distinguirem das “massas inconscientes”. Abordagem esta partilhada por alguns “projetos alternativos de sociedade”, nostálgicos de uma ruralidade pré-moderna, que veem na Razão e na Ciência a causa primordial da “destruição da Mãe Terra”.

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Cheias no Vietnam em 2008 / foto de haithanh / CC BY 2.0
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Ana Margarida Esteves

Ana Margarida Esteves is a Research Fellow at the Center for International Studies of the University Institute of Lisbon, Iscte and Guest Assistant Professor of the Department of Political Economy of the same institution. She has a Ph.D. in Sociology from Brown University (Providence, RI, USA) where she was a Fulbright Fellow. Her research and teaching encompass the relations between the social and solidarity economy, the commons and the sustainability transition movements; synergies between nature, culture and technology; and the application of critical pedagogies, as well as strategies of non-formal education, to social mobilization and the promotion of participatory democracy. She is a founder and member of the International Editorial Committee of the journal "Interface: A journal for and about social movements" (www.interfacejournal.net). She is also a member the RC47: Social Classes and Social Movements of ISA - International Sociological Association and part of its editorial platform Open Movements / Open Democracy (https://www.opendemocracy.net/openmovements ). In 2020, Ana Margarida became a member of SEADS (Space Ecologies Art and Design), a transdisciplinary and cross-cultural collective of artists, scientists, engineers and activists that is actively engaged in deconstructing dominant paradigms about the future and develops alternative models through a combination of critical inquiry and hands-on experimentation.". Previous to joining CEI-IUL, Ana Margarida Esteves held teaching positions at Brown University, Universidade Federal Fluminense (Brazil), Tulane University (New Orleans, USA) and Sunway University (Kuala Lumpur, Malaysia). She is a Visiting Research Fellow at Université Catholique de Louvain-la-Neuve (Belgium) and Scuola Normale Superiore (Florence, Italy).

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