O direito de viver em paz

Cátia Miriam Costa, investigadora do CEI-IUL comenta no seu artigo de opinião mensal para o Jornal Económico a situação de manifestações no Chile.

O Chile procura-se a si próprio, buscando a reconciliação que apenas virá com a mudança. Na semana passada, finalmente, os manifestantes receberam a notícia de que seria iniciado o processo de mudança constitucional. Mas a população ainda pede mais. Quer sentir-se representada, quer apropriar-se do seu país e das suas memórias. Irá conseguir?

São noticiados diariamente acontecimentos que revelam aqui e ali manifestações massivas contra os poderes estabelecidos que parecem divorciados das questões que esses indivíduos reclamam. Os coletes amarelos assinalaram o primeiro aniversário das suas manifestações, em que as cidades mais importantes de França e, sobretudo, Paris ficaram viradas do avesso por uma população que não se contentava com as respostas tradicionalmente dadas pelo sistema político à turbulência social. Contudo, este fenómeno alastrou a todas as latitudes e longitudes.

Enumerar a quantidade de países a enfrentar contestação social e política, porque estas andam sempre ligadas e as questões políticas são sempre também questões sociais, não é fácil. Da Europa à Ásia, passando pelo Médio Oriente e pela Ibero-América, as ondas de protesto afirmam-se e confirmam-se. Em comum, a desilusão com os respetivos sistemas políticos e a reivindicação de uma nova redistribuição de poder e de riqueza, tanto em democracia (formal ou real) como em regimes autoritários. Afinal, todos solicitam o direito de viver em paz, porque, como diz o politólogo norte-americano Michael J. Shapiro, a primeira frente de conflito é sempre a interna.

Cabe-nos agora perguntar como é feita a receção destas manifestações. Como chegam até nós? As notícias chegam-nos desiguais e descontextualizadas. Abrem-se telejornais com os dois mortos fruto do confronto entre manifestantes e forças policiais em Hong Kong, mas nada se diz sobre as mais de 20 vítimas mortais no Chile e os seus 2.200 feridos, resultado de recontros idênticos aos que se assistem no primeiro território. A assimetria da cobertura destes eventos sociais extremos e o tratamento destes acontecimentos como fenómenos pontuais, quando se estão a tornar surtos de contestação sociopolítica durável (chegando a ultrapassar um mês o período de protesto) turva a compreensão sobre os mesmos e a distinção de causas e consequências intrínsecas a cada um deles.

Leia o artigo completo no site do Jornal Económico.

Fotgrafia por Natalia Reyes Escobar / CC BY-SA 4.0
As opiniões expressas neste texto representam unicamente o ponto de vista do autor e não vinculam o Centro de Estudos Internacionais, a sua direcção ou qualquer outro investigador.

CC BY-NC-SA 4.0 This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 4.0 International License.

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