Trump não é um Presidente normal

Os estranhos modelos de Trump

Trump não pode ser considerado um político e menos ainda um presidente normal em termos da política interna e externa dos EUA no pós-Segunda Guerra Mundial. É preciso recuar ao período negro dos anos 1930 para se encontrar o slogan “America First” entre os defensores do apaziguamento de Hitler. Os modelos de liderança de Trump mostram bem que não é um presidente normal dos EUA das últimas décadas. Veja-se os repetidos elogios de Trump ao homem forte russo Vladimir Putin. E Trump escolheu como seu modelo o presidente Andrew Jackson, com direito ao quadro na Sala Oval. Ora, Jackson foi um ilustre general, mas mesmo pelos critérios do início do século XIX, era visto como particularmente brutal. Jackson por várias vezes desafiou de forma controversa a lei interna e internacional. Iniciou o vasto programa de limpeza étnica das tribos nativas na costa leste dos EUA que culminou no chamado “trail of tears”. Claro que eventualmente o populismo de Jackson normalizou-se, tornou-se na base distante do… Partido Democrático que continuou a honrar esse seu papel fundador até recente. Seria impensável, no entanto, que outro presidente escolhesse Jackson hoje como “o” seu modelo a par de Putin como a sua referência externa. Mas Trump como Jackson (e Putin) é um nativista populista que não hesita em usar uma retórica mais ou menos abertamente racista.

Alguma retórica populista é normal, tentar governar de forma populista não é

É relativamente normal haver alguma retórica populista anti-elite, anti-Washington DC nas campanhas eleitorais nos EUA. Mas o que não é normal é um presidente norte-americano tentar governar de forma populista. Foi por isso que tanta gente esperou que Trump se normalizasse mal chegasse à Casa Branca. Muitos apoiantes de Trump argumentaram que ele devia ser levado a sério, mas não literalmente. Por outras palavras muitos dos próprios apoiantes de Trump, nomeadamente dentro do Partido Republicano, defendiam que o que Trump dizia era simples retórica de campanha. O que eles levavam a sério era a possibilidade de que essa mensagem populista os levasse ao poder, mas muitos esperavam o regresso da normalidade política depois disso. Mas não foi isso que sucedeu.

Trump não vive numa república das bananas mas gostava

É verdade que os EUA têm um regime de divisão de poderes sólido. E é concebível que Trump se fique pela retórica e tenha pouco impacto na governação. Mas também é verdade que nenhum sistema político é imune a derivas, e um sistema presidencialista é particularmente vulnerável à emergência de um homem forte. Há o Congresso, mas subestimar o poder do presidente seria um erro. Tanto mais quanto o Congresso é controlado pelos Republicanos. Ora Trump nunca poderia ter chegado tão longe sem o apoio da máquina do Partido Republicano, e os Republicanos também ganharam muito poder com a vitória de Trump.

Se no Congresso alguns senadores republicanos são suficientemente fortes para poderem definir a sua própria posição, a maioria Republicana e mesmo alguns Democratas, sobretudo na Câmara dos Representantes, que enfrentam eleições dentro de dois anos, irão sobretudo determinar-se pela evolução da popularidade do presidente Trump.

Há ainda os Tribunais e os Estados, e foram estes que derrotaram a primeira versão do decreto presidencial que bania viajantes de vários países muçulmanos. Mas as derrotas de Trump não são irreversíveis. E o sistema judicial norte-americano, como bem sublinhou Trump é assumidamente em parte politizado. Os juízes dos tribunais superiores são nomeados pelo Presidente e confirmados pelo Congresso, embora tenham mandato vitalício para evitar pressões diretas. Trump começa o seu mandato podendo influenciar a maioria no Supremo Tribunal nomeando um novo juíz, e nomeará outros para outros tribunais, o que poderá condicionar a eficácia de uma resistência judicial a decisões presidenciais.

O que também ficámos a saber é que Trump, como qualquer bom populista, irá tentar alimentar a irritação das massas contra instituições que façam frente ao presidente. Veja-se os seus tweets atacando juízes, apontado-lhe o dedo relativamente a futuros atentados terroristas, uma ameaça real que a sua retória anti-islâmica não ajuda a combater.

Eficácia das políticas públicas e eficácia política são coisas diferentes

Os críticos de Trump até podem ter razão que será difícil tornar eficazes várias das promessas anunciadas, desde a substituição do Obamacare até a um muro para cortar uma relação tão forte como a que liga os EUA ao México, do total banimento de muçulmanos à aposta ao mesmo tempo no carvão e no gás de xisto. Mas também é claro que Trump não vai simplesmente ignorar estas promessas. Vai tentar concretizar pelos menos uma variante delas. A proposta de orçamento de Trump mostra isso mesmo com cortes enormes ao nível da diplomacia, do ambiente, da ajuda ao desenvolvimento, até à televisão pública e à investigação científica. E Trump irá procurar retirar o máximo de ganhos políticos de tudo isto, reclamando créditos mesmo que não sejam seus, e atirando as culpas de quaisquer problemas para as elites. Usará o medo do terrorismo, dos imigrantes e do desemprego para alimentar a mobilização dos seus apoiantes. Isso pode não levar a política públicas eficazes, mas pode ser eficaz em termos de política eleitoral.

A busca vã dos verdadeiros norte-americanos

Tudo dependerá em última análise das instituições do Estado e da sociedade civil e, sobretudo, dos cidadãos dos EUA, a força e fraqueza de qualquer democracia liberal. De organizações como a ACLU, de defesa dos direitos fundamentais, que colocou decisões de Trump em tribunal, e viu os seu donativos nos poucos meses desde início da presidências ultrapassar as de um ano normal. O que parece faltar aos opositores de Trump é uma grande ideia congregadora e um líder alternativo.

Mas Trump não é um representante da verdadeira América? É um mito de que os eleitores de Trump são os genuínos norte-americanos, os “real Americans” de que o novo presidente gosta de falar, e que agora algumas reportagens procuram como uma espécie de tribo perdido. Isso é “comprar” a retórica populista e identitária de Trump. Hillary Clinton ganhou o voto popular na eleição presidencial por quase 3 milhões de votos. Os EUA são cada vez mais um país urbanizado e multirracial. Os eleitores de Nova Iorque ou da Califórnia não são menos norte-americanos do que os do Estados mais conservadores e rurais a que o sistema do colégio eleitoral dá um peso superior, por razões em parte compreensíveis num sistema federal. O sistema eleitoral norte-americano está realmente distorcido como dizia Trump, mas num sentido que o favorece.

Trump não é Hitler, é o Kaiser

A única coisa que podemos afirmar com certeza sobre um presidente tão fora do normal e inexperiente como Trump é que ele é imprevisível, embora tenha algumas obsessões de estimação. Desse ponto de vista a comparação com Hitler é exagerada. Trump assemelha-se mais ao Kaiser Guilherme II que liderou a Alemanha antes e durante a Primeira Guerra Mundial – rodeado por um parlamento democraticamente eleito, e por alguns ministros experientes e prudentes, mas dado a gestos irrefletidos e belicosos. No tempo de Guilherme II não havia twitter, mas havia telegramas, e o último imperador alemão usou-os de forma impulsiva e negativa para a estabilidade do sistema internacional.

Há forças que podem condicionar ou derrotar Trump, mas também há outras que favorecem o seu tipo de populismo. A globalização, a informatização e a robotização não são bons para todos, mesmo nos EUA. Ignorar isto, irá continuar a dar espaço ao populismo. Seria errado pensar que movimentos de protesto, por mais ruidosos que sejam nas ruas não são o mesmo que uma coligação eleitoral ou de governo que poderá derrotar Trump e os Republicanos. Isso exigirá trabalho, embora uma tentativa falhada de substituir Obamacare possa ajudar.

Não estamos a prever que Trump acabará como o Kaiser. As armas nucleares ajudam a tornar uma grande guerra suicida. E pode ser que vozes mais razoáveis no seu governo prevalecem. Também pode ser que Trump cometa demasiado erros para sobreviver politicamente. Mas subestimar Trump tem-se revelado um erro fatal para muitos dos seus adversários. E até pode ser que para durar Trump se torne um presidente mais normal, mas para isso teria de conseguir vencer a sua personalidade e as suas obsessões de estimação, algo que o Kaiser nunca conseguiu.

President of the United Sates, Donal J. Trump. Photo by Gage Skidmore / CC BY-SA 2.0

CC BY-NC-SA 4.0 This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 4.0 International License.

Bruno Cardoso Reis

Guest author at Changing World. PhD in International Security (King's College). Master in Historical Studies (Cambridge Univ.). Guest lecturer at ISCTE-IUL. Researcher at ICS-IUL and Associate Researcher at CEI-IUL and King's College.

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